Saúde, além do hospital.

Especial Análise do Setor - Artigo

Vivemos em tempos que, cada vez mais, valorizam o espetacular e o sinistro. Nos últimos meses, a situação da segurança pública no Rio de Janeiro deteriorou-se tremendamente. As alegres noites cariocas, antes recheadas de samba e conversas de amigos, têm sido vazias e carregadas de medo. Morreu uma criança baleada na barriga da mãe, antes mesmo de nascer. Os cariocas passaram a conviver com homens do Exército nas ruas, com seus fuzis e tanques, patrulhando os bairros. Espetacular e sinistro.

O caso atual do Rio de Janeiro é ilustrativo do que acontece com a política pública brasileira de forma geral – e na saúde em particular. Como resposta a demandas legítimas da população, o governo investe em ações de alta visibilidade, mas baixo impacto estrutural. São feitas para o governante, não para o governado.

O Brasil precisa parar de tratar inauguração de hospital como a única política pública do setor e começar a reconhecer que a saúde é uma responsabilidade transversal de todas as partes do governo e da sociedade. Nunca haverá leitos suficientes para atender à população em uma zona de guerra.

E não é só o atendimento médico-hospitalar que é saúde. Em muitos casos, o fato de o paciente ser atendido em um hospital indica, antes, um fracasso da política de atenção. O ideal não é ter leitos suficientes para atender a todos os pacientes com dengue, mas, sim, ter ações de prevenção para que as pessoas não a contraiam em primeiro lugar. Da mesma maneira que a dengue, a maioria das doenças dos brasileiros poderiam ser prevenidas ou controladas de forma extra-hospitalar.

Mas as ações devem ir além do escopo de atuação estrito do Ministério da Saúde. Nas escolas, precisamos ensinar os princípios básicos de como manter uma vida saudável – da alimentação à higiene, dos riscos das drogas à saúde sexual. No trânsito, que mata quase 40.000 pessoas por ano, é necessária educação, além de manutenção adequada de vias públicas, sinalização e fiscalização apropriadas.

Nem só de fora, porém, vêm os riscos à saúde dos cidadãos. Mais de 12.000 brasileiros tiram a própria vida todos os anos. Precisamos de programas adequados de saúde mental, mas também de fomentar um senso de comunidade, família e perspectivas positivas de vida – especialmente para os jovens, faixa etária na qual o suicídio mais cresce no país. Neste sentido, a recuperação do crescimento econômico é fundamental.

Para além disso, há todas as questões estruturais, como acesso a água e saneamento – apenas metade da população brasileira mora em residências com coleta de esgoto e apenas 43% dos esgotos passam por tratamento. Há questões ambientais, como a limpeza das águas e do ar, e o acesso a espaços verdes e áreas para praticar exercícios, que afetam diretamente a saúde dos indivíduos.

Mesmo se focarmos exclusivamente na recuperação e reabilitação de pacientes, precisamos ir além das estruturas físicas. A qualidade da atenção à saúde depende da capacidade de formar recursos humanos de forma adequada (educação), dos recursos que esses profissionais têm para trabalhar (ciência e tecnologia) e, fundamentalmente, da organização geral deste sistema (gestão).

Olhar para a escala dos problemas pode ser uma experiência assustadora. Parece que é impossível tratar desses temas com algum grau de eficácia e que qualquer iniciativa é insignificante. Não é o caso – programas de sucesso, como o fornecimento de medicamentos contra a AIDS, a estratégia de saúde da família e as vacinações demonstram que, quando há vontade política e organização, é possível conseguir resultados no longo prazo.

Os entraves, portanto, não serão resolvidos de forma espetaculosa, com ações midiáticas. Eles requerem o trabalho árduo, dedicado e silencioso de milhões de profissionais que, passo a passo, construirão uma saúde melhor para os cidadãos. As tragédias de todos os dias não ganham as mesmas manchetes daquilo que é espetacular ou sinistro, mas são elas o verdadeiro desafio a superar para melhorar o país.

*Francisco Balestrin é Presidente do Conselho da Anahp – Associação Nacional dos Hospitais Privados e da IHF – International Hospital Federation

**Matéria originalmente publicada na Revista Hospitais Brasil edição 88, de novembro/dezembro de 2017. Para vê-la no original, acesse: portalhospitaisbrasil.com.br/edicao-88-revista-hospitais-brasil



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